sexta-feira, dezembro 19, 2025

Nascimento de Manoel de Barros


 INFÂNCIA

Coração preto gravado no muro amarelo.
A chuva fina pingando… pingando das árvores…
Um regador de bruços no canteiro.

BARQUINHOS DE PAPEL na água suja das sarjetas…
Baú de folha de flandres da avó no quarto de dormir.
Réstias de luz no capote preto do pai.
Maçã verde no prato.

Um peixe de azebre morrendo… morrendo, em dezembro.
E a tarde exibindo os seus
Girassóis aos bois.

quinta-feira, novembro 13, 2025

Aniversário de morte de Manoel de Barros


Seis ou treze coisas que aprendi sozinho

8.

Uma chuva é íntima

Se o homem a vê de uma parede umedecida de moscas;

Se aparecem besouros nas folhagens;

Se as lagartixas se fixam nos espelhos;

Se as cigarras se perdem de amor pelas árvores;

E o escuro se umedeça em nosso corpo.

segunda-feira, outubro 27, 2025

Garça azul

 XIII.

Certas palavras têm ardimentos; outras, não.

A palavra jacaré fere a voz.

É como descer arranhado pelas escarpas de um

serrote.

É nome com verdasco de lodo no couro.

Além disso é agríope (que tem olho medonho).

Já a palavra garça tem para nós um

sombreamento de silêncios…

E o azul seleciona ela! 



segunda-feira, agosto 04, 2025

quarta-feira, maio 21, 2025

Haicai 5


 

Afundo um pouco o rio com os meus sapatos. 

Desperto um som de raízes com isso.

A altura do som é quase azul.





Imagens: Memorial “Sapatos às Margens do Danúbio”, próximo ao Parlamento Húngaro.

domingo, março 02, 2025

Sobre portas

 


Foto tirada por mim na Igreja de Nossa Senhora da Guia, em Lucena, Paraíba. O início da construção se deu no final do século XVI.



A maior riqueza do homem

é a sua incompletude.

Nesse ponto sou abastado.

Palavras que me aceitam como sou – eu não aceito.

Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas,

que puxa válvulas, que olha o relógio,

que compra pão às 6 horas da tarde,

que vai lá fora, que aponta lápis,

que vê a uva etc. etc. 

Perdoai.

Mas eu preciso ser Outros.

Eu penso renovar o homem usando borboletas.



sexta-feira, dezembro 13, 2024

O muro



 

Não possuía mais a pintura de outros tempos.

Era um muro ancião e tinha alma de gente.
Muito alto e firme, de uma mudez sombria.

Certas flores do chão subiam de suas bases
Procurando deitar raízes no seu corpo entregue ao tempo.
Nunca pude saber o que se escondia por detrás dele.
Dos meus amigos de infância, um dizia ter violado tal
segredo,
E nos contava de um enorme pomar misterioso.

Mas eu, eu sempre acreditei que o terreno que ficava atrás
do muro era um terreno abandonado!