Sábado, Fevereiro 04, 2012

Tempo

"Eu não amava que botassem data na minha existência. A gente usava mais era encher o tempo. Nossa data maior era o quando. O quando mandava em nós. A gente era o que quisesse ser só usando esse advérbio. Assim, por exemplo: tem hora que eu sou quando uma árvore e podia apreciar melhor os passarinhos. Ou: tem hora que eu sou quando uma pedra. E sendo uma pedra eu posso conviver com os lagartos e os musgos. Assim: tem hora eu sou quando um rio. E as garças me beijam e me abençoam. Essa era uma teoria que a gente inventava nas tardes. Hoje eu estou quando infante. Eu resolvi voltar quando infante por um gosto de voltar. Como quem aprecia de ir às origens de uma coisa ou de um ser. Então agora eu estou quando infante. Agora nossos irmãos, nosso pai, nossa mãe e todos moramos no rancho de palha perto de uma aguada. O rancho não tinha frente nem fundo. O mato chegava perto, quase roçava nas palhas. A mãe cozinhava, lavava e costurava para nós."
(...)
 
[Memórias inventadas: a segunda infância ]

Imagem: Susana Neto.

Sexta-feira, Outubro 28, 2011

Uma Didática da Invenção

Não tem altura o silêncio das pedras.

(Uma Didática da Invenção - 1ª parte, trecho X)

Adoecer de nós a Natureza:
- Botar aflição nas pedras
(Como fez Rodin).

(Uma Didática da Invenção - 1ª parte, trecho XI)



Imagem: INGÁ, Pb. Fotografia tirada por mim em 2010.

Sábado, Outubro 30, 2010

Manoel de Barros vence o 6º prêmio BRAVO! de Cultura


Em cerimônia realizada na Sala São Paulo em 25/10/2010, o escritor e poeta Manoel de Barros foi contemplado com o Prêmio BRAVO! Bradesco Prime de Cultura.

“Fiquei satisfeito, não poderia querer coisa melhor”, afirmou Barros em mensagem gravada em vídeo. Em seu discurso de agradecimento, o poeta também se referiu à dimensão artística que definitivamente atingiu na cultura brasileira: “Virei um mito para quem gosta da minha poesia”.

Autor de mais de 30 livros e vencedor do prêmio Jabuti por duas vezes, Manoel de Barros lançou em 2010 sua obra poética completa, além de ganhar uma “desbiografia” autorizada no documentário "Só Dez Por Cento é Mentira", do diretor Pedro Cezar.

Nascido em 1916, cronologicamente Manoel de Barros pertence à Geração de 45, mas formalmente é associado ao Modernismo, com maior aproximação das vanguardas europeias do início do século XX e da Antropofagia de Oswald de Andrade.

De acordo com o site da Fundação Manoel de Barros, um instituto de apoio à cultura e de assistência social batizado em sua homenagem, Barros adota uma temática regionalista e inspirada na natureza, “indo além do valor documental para fixar-se no mundo mágico das coisas banais retiradas do cotidiano”.

(...)

Além do artista do ano, outras 11 categorias foram premiadas na festa, que também incluiu uma recriação de sambas de Noel Rosa, artista que completaria 100 anos em 2010.



Domingo, Agosto 29, 2010

Parrrede!

Quando eu estudava no colégio, interno,
Eu fazia pecado solitário.
Um padre me pegou fazendo.
- Corrumbá, no parrrede!
Meu castigo era ficar em pé defronte a uma parede e
decorar 50 linhas de um livro.
O padre me deu pra decorar o Sermão da Sexagésima
de Vieira.
- Decorrrar 50 linhas, o padre repetiu.
O que eu lera por antes naquele colégio eram romances
de aventura, mal traduzidos e que me davam tédio.
Ao ler e decorar 50 linhas da Sexagésima fiquei
embevecido.
E li o Sermão inteiro.
Meu Deus, agora eu precisava fazer mais pecado solitário!
E fiz de montão.
- Corumbá, no parrrede!
Era a glória.
Eu ia fascinado pra parede.
Desta vez o padre me deu o Sermão do Mandato.
Decorei e li o livro alcandorado.
Aprendi a gostar do equilíbrio sonoro das frases.
Gostar quase até do cheiro das letras.
Fiquei fraco de tanto cometer pecado solitário.
Ficar no parrrede era uma glória.
Tomei um vidro de fortificante e fiquei bom.
A esse tempo também eu aprendi a escutar o silêncio
das paredes.

Manoel de Barros

(No livro Memórias Inventadas, As infância de Manoel de Barros)


Sábado, Julho 03, 2010

Aprendimentos


O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura é
o caminho que o homem percorre para se conhecer.
Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim
falou que só sabia que não sabia de nada. Não tinha
as certezas científicas. Mas que aprendera coisas
di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas
das árvores servem para nos ensinar a cair sem
alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado
sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente
aprender o idioma que as rãs falam com as águas
e ia conversar com as rãs. E gostasse mais de
ensinar que a exuberância maior está nos insetos
do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de
ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros
do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara
nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver,
no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar. Chegou
por vezes de alcançar o sotaque das origens.
Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno
grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!
Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles –
esse pessoal. Eles falavam nas aulas: Quem se
aproxima das origens se renova. Píndaro falava pra
mim que usava todos os fósseis linguísticos que
achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam
que o fascínio poético vem das raízes da fala.
Sócrates falava que as expressões mais eróticas
são donzelas. E que a Beleza se explica melhor
por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei
sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.

[Manoel de Barros]

*Obs.: Do livro: "Memórias Inventadas - As infâncias de Manoel de Barros".
Imagem: Sócrates.

Sexta-feira, Maio 14, 2010

Manoel de Barros homenageado em Santa Teresa


Nos dias 15 e 16 de maio Alinhar ao centrode 2010 haverá no Rio de Janeiro a Feira Literária de Santa Teresa e os homenageados são Manoel de Barros e Noel Rosa.
O poeta Manoel de Barros respondeu à carta enviada pelo CEAT: "Estou tentando escrever o Livro do Chão. Lá o vento é vertical".
Veja nesse link.

Visite a página da Feira para mais informações:
http://www.flist.org.br


Segunda-feira, Janeiro 04, 2010



"Eu vi uma manhã desaberta na beira de um rio igual que uma garça estivesse desaberta na beira do rio."

Cinco palavras bonitas sem as quais escrever não teria tanta graça:


"chão, água, caracol, árvore e garça."

Cinco razões pelas quais vale a pena ser poeta:


"Penso que não tive escolha
Fui escolhido e gostei da escolha
Faço o que sonho
Faço o que gosto
Sou um pouco irresponsável
com os passarinhos, isto seja:
Sou livre
Amo a palavra"


Manoel de Barros


Trechos da entrevista a Luciana Pessanha, especial para "O Globo".

Imagem: Markus Lüske